
“Gosto de pensar que meu trabalho de editora é capaz de mudar as pessoas e, portanto, transformar o mundo”. Assim Elaine define a importância de seu trabalho. Aos 49 anos, vinte dos quais dedicados à sala de aula e oito à edição de livros, ela não esconde a paixão pelo próprio trabalho e pela literatura. Sua experiência no mercado editorial é reconhecida através dos muitos livros premiados e selecionados pelo PNBE (Programa Nacional Biblioteca Escola do Governo Federal, que compra e distribui livros pelas escolas públicas do País) editados por ela nos últimos anos.
Na entrevista abaixo, Elaine fala sobre sua carreira, o trabalho do editor e sua relação com os livros, cultivada com intimidade e diligência. Confira!
Depois de vinte anos atuando como professora de português e literatura, você se tornou editora. Como foi essa mudança de carreira?
Nunca planejei ser editora e sequer conhecia em detalhes a função do editor. Comecei a me aproximar do mundo editorial através de uma editora de Porto Alegre, elaborando roteiros de leitura para professores. Em seguida, ministrei oficinas de capacitação de professores para formação de leitores e fiz também algumas leituras críticas. O que me aproximou da área editorial, primeiramente, foi o conhecimento teórico, pela minha formação, e depois a experiência com a literatura para crianças e jovens, que vem da longa trajetória na sala de aula. A partir de 2004, fui convidada, por outra editora porto-alegrense, a pensar um projeto voltado para o público escolar.
Qual a graça de trabalhar com livros?
A maior graça de ser editor é o produto final, o livro. A chegada de um livro da gráfica é um momento incrível, de muita emoção. Mas não é só o produto que emociona, todo o processo de produção é muito bacana e eu amo cada etapa: a primeira leitura de um original, sua aprovação, as releituras, a preparação, a escolha do designer, do ilustrador, a aprovação das artes. Todo esse processo é extremamente prazeroso e me encanta! E depois do livro pronto, há a sensação de que o trabalho não terminou ali, ele vai em frente, cumprindo o objetivo inicial que é capturar o leitor, transformando-o. Gosto de pensar que meu trabalho de editora, como o de professora, é capaz de mudar as pessoas e, portanto, transformar o mundo. Muita pretensão?
Não é apenas a qualidade literária que define a publicação, há outras questões importantes e uma delas é a questão mercadológica.
Como você escolhe um texto para publicar?
Um texto, seja para crianças, jovens ou adultos, precisa em primeiro lugar me convencer como leitora. Nesse sentido, o trabalho do editor tem uma boa dose de subjetividade, pois mesmo que se tenha o aporte teórico para saber o que tem ou não qualidade, o gosto estará sempre presente. E se o texto me convence (e se convence é porque tem qualidade literária), a partir daí entram outras análises que definirão ou não sua publicação. Não é apenas a qualidade literária que define a publicação, há outras questões importantes e uma delas é a questão mercadológica. É preciso pensar que público se quer atingir e como o livro será trabalhado comercialmente. No caso do livro infantil, por exemplo, sabe-se que quem faz a seleção é o adulto, um mediador que poderá ser o professor, o bibliotecário ou alguém da família e esse é um aspecto que deve ser levado em consideração: o livro é para a criança, mas de alguma forma é preciso chamar a atenção do adulto para que ele o leve até a criança. No juvenil, é preciso pensar de que forma aquele texto poderá chamar a atenção do professor, que é quem adotará o livro na escola, como do próprio jovem na prateleira da livraria ou na estante da biblioteca.
Agora, no seu trabalho como consultora, você lida com diversas editoras. Deve ser difícil sugerir publicações e autores para catálogos tão diferentes.
O interessante de trabalhar com projetos para várias editoras é que se tem mais possibilidades de colocar em prática o tanto de ideias que se tem, ou seja, há sempre mais ideias do que capacidade de publicação. Cada editora tem uma capacidade, um número de publicações por ano; cabeça do editor, porém, não para nunca, está sempre borbulhando de ideias! Entendo que não é difícil desenvolver projetos para editoras diferentes, o importante é que o projeto “tenha a cara” da editora, tanto em relação aos temas abordados nas coleções/nos livros, quanto no projeto gráfico que será desenvolvido. O fundamental é que se tenha o cuidado de não se repetir, no sentido de ter livros de editoras diferentes como se fossem todos da mesma. Entra aí a criatividade, o conhecimento do mercado, a competência e a sensibilidade do editor.
Como foi a tua aproximação da 8INVERSO e qual tua expectativa no trabalho de consultoria editorial a esta editora?
O convite para prestar consultoria à 8INVERSO veio num momento em que eu ainda me preparava para essa nova etapa da minha vida profissional – ser uma editora independente – e isso foi muito positivo pra mim. É um belo desafio e extremamente apaixonante, porque traz a possibilidade de planejar e acompanhar a continuidade de um catálogo que, embora ainda pequeno, já tem títulos importantes, e isso aumenta minha responsabilidade ao propor outras publicações. Além de acompanhar a construção do catálogo, o convite trouxe a possibilidade valiosa de poder contribuir em outras questões que movimentam uma editora; poder pensar cada detalhe das ações que envolvem o livro “de ponta a ponta” é genial.
Em algumas situações, os tablets podem ser interessantes, como para a leitura de originais ou obras de consulta e/ou de referência, mas ainda não gosto da ideia de ler um romance ou poesia nesses novos suportes.
Qual sua opinião sobre o futuro do livro impresso, com a popularização dos tablets e ebooks?
Essa é uma questão complexa e ainda desconhecida pra mim. Na verdade, como amante do livro no formato em que o conheço desde criança, resisto a essa ideia do livro digital e já cheguei a negá-la. Porém, percebi que era preciso deixar a birra de lado e estou tentando conhecer e entender em que aspectos essa revolução pode ser positiva. Penso que, é óbvio, esse não é um processo de substituição imediata; acontecerá, como aconteceu com outras artes e seus suportes – o cinema, a música – uma evolução que vai naturalmente acomodando as coisas e a tendência será a convivência, por muitos anos, do livro de papel com o digital. Em algumas situações, os tablets podem ser interessantes, como para a leitura de originais ou obras de consulta e/ou de referência, mas ainda não gosto da ideia de ler um romance ou poesia nesses novos suportes. Gosto da minha estante cheia de livros!
O que diria para alguém que sonha em trabalhar com o livro, seja editando, ilustrando ou escrevendo?
Penso que há muito espaço e muito a ser feito em termos de produção de livros. Com a crescente expansão da literatura para crianças e jovens, o espaço para designers e ilustradores é cada vez maior. O problema que vejo, especificamente nessa área de produção de livros infantis, é o pouco conhecimento de literatura e de ilustração para esse público, o que resulta em livros de baixa qualidade. Sinto que há, por vezes, uma certa pressa por parte de autores e de ilustradores iniciantes, em publicar. O que eu diria é que é preciso estudar, se preparar muito, ouvir críticas, ler muito antes de publicar. Para ser editor, é preciso aliar conhecimento teórico, muita leitura e olhar aguçado.
Tiva a honra imensa de trabalhar com essa moça, num projeto pela Artes e Ofícios, e aprendi em meses o que vale uma vida. Parabéns, ELaine!
“É preciso estudar, se preparar muito, ouvir críticas, ler muito antes de publicar.” É isso aí. Estamos na luta.
Abraços e parabéns!
Tive um livro publicado pela coordenadoria da Elaine. Ele tem me levado para palestras em várias partes do país e suas adoções ultrapassaram em muito o que eu esperava. O feeling da editora e as mudanças sugeridas no texto certamente são os responsáveis por esse sucesso do livro.
Espero ter o prazer de publicar muitos outros pelas mãos da Elaine.
A Elaine alia duas coisas fundamentais na área editorial: entusiasmo e pés no chão. Boa sorte pra ela e pra 8Inverso, que conheci nessa feira e achei muito simpática.
Sem comentários, ELaine é simplesmente uma baita profissional.
Parabéns Laine!!!
Me sinto orgulhosa em tê-la com Embaixatriz da Confraria das Letras em Braille.
Bj
Isabel