Sempre gostei de arquitetura. Desde pequeno e mesmo sem saber desenhar nada.
Fui e sou fã de caras como Fernando Corona, Alvar Aalto, Le Corbusier, etc. Adulto, costumo comprar livros, coleções e enciclopédias a respeito. Quando tenho tempo até cometo um ou outro esboço, ainda que não tenha aprendido a desenhar.
Hoje em dia, se me permitem a pretensão, percebo uma certa tendência à arquitetura Big Brother. Reparem: são amplas janelas nas fachadas e nas laterais de inúmeras residências espalhada por aí. Amplas não. Algumas dessas janelas são gigantescas, transformam o interior da habitação em palco. Lá dentro, os moradores-atores devem se sentir famosos, personagens de comédias ou dramas. Não me parece mero conceito estético ou recurso tocante à iluminação natural ou à ventilação. Não. Acho que de um modo nem tão sutil assim refletem o mundo em que vivemos.
O que sobra se tirarmos todos os artefatos Big Brother de uma casa moderna? Sobra a casa, o que, de fato, interessa.
E já vou chegar ao que importa nesta arenga de mal digitadas linhas.
Antes:
Não consigo esquecer a resposta que uma menina de 9 ou 10 anos deu ao ser questionada sobre o que gostaria de ser no futuro. Disse a menina, diante dos colegas, dos professores e de um palestrante atônito: Quero ser famosa! E ela não se referia a famosos como Albert Einstein, Marie Curie, Ernest Hemingway, ou Tarsila do Amaral. A guria se referia a famosos como… Bem não sei seus nomes, mas são milhares e invadem a mídia diariamente. É um resumo bem fiel da sociedade do Ter, do Parecer. E, lógico, para ser famoso é preciso aparecer, se destacar; acho mesmo que criou-se uma novíssima profissão, a de Famoso. Oi, boa tarde, o que a senhora faz? Sou famosa. Ah, tá! Existe um sindicato dos famosos? Vai assim mesmo na carteira de trabalho? “Famoso”?
Diante disso, é natural ver a gurizada se comportando igual a esse tipo de gente (nada contra “esse tipo de gente”. Por certo têm qualidades e são boas pessoas, os famosos). Bom, então a gurizada fala, dança, se veste e, acima de tudo, se comporta como se espera de um famoso. Um exemplo: Outro dia, no táxi lotação, duas meninas conversando, tinham vinte e poucos anos. Uma delas com um cabelo ridículo. Não sou analista capilar, nem entendo nada sobre corte e laquê (pois é, sou do tempo do laquê), mas era ridículo o cabelo da guria: preto na raiz até a orelhas. Das orelhas até o final, abaixo dos ombros, os cabelos eram de um loiro amarelo. Aí a outra, a amiga da guria de cabelos à la Penharol, de fato uma amiga de verdade, a questionou sobre aquilo. A mocinha então deu uma resposta insofismável: Tá na moda. Pronto, isso explica tudo. Está na moda usar grilhões em volta do pescoço, calças com os fundilhos nos joelhos. É a moda. Está na TV, nos videoclipes.
Voltemos à arquitetura. Porque em tal contexto de aparências e de necessidade de se seguir o cardume, a manada, o bando, a matilha, a cáfila, escolham aí, se proliferam as residências com os telões transparentes, próprios para o brilho das celebridades anônimas.
Na maioria das vezes o público e os organizadores esperam, desejam, anseiam por uma celebridade. E na maioria das vezes quem sobe ao palco é uma criatura normal, o escritor.
Certo, e o que isso tudo — esse imenso nariz de cera — tem a ver com literatura, foco dessa tentativa de cronicartigo?
Ora, a literatura não é impermeável. Muito menos o que a orbita. Assim chegamos, por exemplo, às feiras do livro.
Na maioria das vezes o público e os organizadores esperam, desejam, anseiam por uma celebridade. E na maioria das vezes quem sobe ao palco é uma criatura normal, o escritor.
E aí?
E aí começam os problemas para as partes envolvidas. O escritor está encurralado, o público desinteressado, os organizadores constrangidos, quando não revoltados pela performance do convidado. Performance não: falta de performance.
Tenho uma coleção inteirinha de eventos nos quais provoquei desapontamento pela minha não-performance ou anti-performance. Em um dos casos mais recentes, deparei-me com plateia de mais ou menos 200 pessoas. Ó, pensei, que maravilha! Ao dar boa tarde já percebi algum desconforto do público. A seguir, ao agradecer o convite para ali estar falando de literatura, 50% dos presentes levantaram das cadeiras plásticas de cor branca e deixaram o recinto. Cinco minutos depois, restava uma dúzia de abnegados espectadores.
Correndo o risco de estar errado, concluí: eles não queriam que eu desse boa tarde, queriam que eu entrasse em cena pilotando malabares de fogo. Eles não estavam dispostos a ouvir sobre livros, desejavam ouvir piadas. Eles, muito provavelmente, aguardavam um show.
Aprofundemos.
Do episódio icônico, podemos experimentar explicações variadas:
1) ninguém ali estava interessado no autor ou em literatura, exceto aquela brava meia dúzia;
2) o palestrante foi incompetente para segurar a plateia;
3) o evento foi mal organizado;
4) o público se equivocou.
Em maior ou em menor grau, as explicações são verdadeiras. Porque muitas vezes as pessoas querem uma estrela, um famoso, não exatamente um escritor. Claro, existem escritores e escritoras que são estrelas, são famosos — no bom sentido. E isso é bom, agrada, é válido. Mas as pessoas são diferentes, como se sabe.
Já presenciei palestras de escritores que se transformaram em sessão de anedotas, outras que viraram encontro de recreacionismo. Não por deficiência do palestrante, ao contrário. Eles perceberam o que a plateia realmente queria. E de novo: nada contra anedotas nem recreação. Porém, na maioria das vezes, o autor foi convocado a falar sobre sua obra, sobre literatura. Oquei, vá lá, sejamos sinceros: já presenciei apresentações de autores em que o conteúdo de suas falas cabe mesmo somente no interior de uma anedota.
O pior de tudo é ver a tentativa dos organizadores em disfarçar sua decepção com o autor-que-fala-de-livros-e-de-literatura-e-não-faz-show-só-fala. Já tive conversas bem francas com organizadores de eventos literários após um malfadado encontro. Não, não pensem que briguei ou reclamei, não sou desse tipo. Apenas expus meu ponto de vista, fiz sugestões, assumi parte da culpa. Em muitas ocasiões, tal argumentação foi minha sentença de banimento.
Em uma sociedade que valoriza tanto a aparência, é justo pensar que na literatura também se valorize o espetáculo. Não por acaso em muitas feiras de livro estão lá as camas elásticas, os malabares de fogo, o cinema 3-D, palhaços, duendes, cachorro-quente e, em algum cantinho, até livros.
Falando em briga: há uma tendência de se prestigiar os briguentos. Cansei de ouvir organizadores falarem mal de um ou de outro autor, ah, ele é arrogante, ou, xi, aquela lá reclamou até do cafezinho. E no ano seguinte, adivinhem quem escolheram para patrono com direito a toda pompa e salamaleques?
Assim, em uma sociedade que valoriza tanto a aparência, é justo pensar que na literatura também se valorize o espetáculo. Não por acaso em muitas feiras estão lá as camas elásticas, os malabares de fogo, o cinema 3-D, palhaços, duendes, cachorro-quente e, em algum cantinho, até livros. Não esqueçamos também das atrações musicais. Já vi Feira do Livro onde a banca mais central e mais frequentada era a que comercializava capetas. E não, não me refiro ao canhoto, ao belzebu, falo do drinque à base de cachaça.
Já me explicaram: Cara, essas atrações são necessárias para chamar o público na direção dos livros. Será? Prefiro minha ignorância. Acho que tais acréscimos têm o efeito contrário. Vejo isso acontecer há mais de 20 anos. Creio que feiras do livro devem ter livros e leitores. O resto é bacana, é legal, mas fica melhor em outro tipo de atividade. Digo sempre: a pessoa mais famosa, a verdadeira celebridade, a estrela máxima de uma feira do livro, é o leitor. Sem ele, não existe mais nada.
E se os leitores são poucos em um município ou em uma escola, é preciso cativá-los e motivá-los. Os resultados positivos sempre aparecem. Mas, claro, dá trabalho. E quando essa palavra aparece tem o péssimo hábito de disseminar surto de brotoejas. O que nos salva são as pessoas interessadas e comprometidas. Trabalhar em favor da leitura. Quem terá coragem de dizer que o esforço não vale a pena?
Toda essa arenga capenga, essa embolada de letras, para sugerir uma reflexão, até porque, como se sabe, a literatura pergunta muito mais do que responde. Arrisco outra indagação: O que sobra se tirarmos todos os artefatos Big Brother de uma casa moderna? Sobra a casa, o que, de fato, interessa. Evidente, sem tanto glamour nem tanto espetáculo, mas casa, morada, lar. Coloquemos um livro aberto sobre nossas cabeças. Garanto, é um senhor telhado.
Luís Dill é jornalista e escritor; seu primeiro livro pela 8INVERSO, A dor mais afiada, será lançado em março.